O dia em que até Messi teve pena dele próprio

A Croácia ganhar por 3-0 à Argentina é um escândalo pela história, pelos dois Mundiais no currículo, pelo estatuto de terem Lionel quando já tiveram Diego, e por tudo o que os argentinos já fizeram no futebol. Mas não é pelo que aconteceu no campo, onde os croatas são uma das seleções mais fortes deste Campeonato do Mundo e têm a melhor dupla de médios em Modric-Rakitic. No mesmo campo onde os argentinos são, cada vez mais, uma desorganização pegada

Não vamos ignorar o enorme mamute que há dentro da sala, sempre que a Argentina joga, nem tentaremos ceder ao irresistível. Vamos deliberar sobre Lionel Messi.

Há todo um manancial de causas possíveis, desde a simples vontade, a um qualquer incómodo dermatológico, para ele massajar a testa, repetidamente, com uma mão, enquanto soa o harmonioso hino argentino. Lionel pode estar com comichão, quiçá sentir uma leve dor de cabeça, até podia matutar sobre o que lhe iriam servir de jantar. Não fossem as circunstâncias da sua vida, neste momento, fazer-nos deduzir que aquele gesto é de um homem são e capaz, perfeitamente ciente da inevitabilidade do destino, que lhe vai fazer isto, outra vez.

Messi sabe, tem noção que é capitão de um conjunto de jogadores, só esporadicamente confundíveis com uma equipa, esquizofrénicos no seu comportamento dentro de um campo de futebol. Prevê o óbvio, que eles vão ser sofríveis de ver pelas mensagens confusas e difusas que passam uns aos outros: a bola vai muito a Caballero, apesar de dono de todos os sinais de desconforto por usar os pés, passada pelos defesas e recebida, de novo, por eles, almas que aparentam querer tocar e jogar, mas que batem, em chutões, e se livram, temerosos, de quase todas essas bolas.

Messi treina e convive e existe com esta gente, papelada num 3-4-3 e desorganizada no relvado. Ninguém se mostra às bolas que os defesas tentam começar, vivalma se dá ao risco. Não há um jogador que se movimente, tente abrir espaço, fixe um adversário com a bola antes de a passar, raramente se veem sequências de passe para mexerem com a organização alheia - a croata, que tem muitos bons jogadores, alguns muito bons e dois excelentes, Modric e Rakitic, pensadores geniais de jogo que tudo dominariam juntos.

Messi já o sabia.

Mesmo antes de tudo começar, fecha os olhos e reza seja lá a quem esteja em cima do seu plano. Ele é quase inexistente na primeira parte boa, apenas, nas transições para a frente, da Croácia, nas bolas que saem dos pés de Modric, na vertigem e verticalidade de Perisic e Vrsaljiko, que aproveitam toda a profundidade e largura que há no campo argentino. A primeira parte é boa apenas por causa dos croatas.

Eles vão contra o corpo presente de uma seleção sem intensidade, ideias ou risco, despida de talento no campo por quase todo o que há, além de Messi, está sentado no banco. Lionel fica mole, escondido e de cabisbaixo, quase amorfo. Não é o primeiro filtro de jogadas, o médio que vem buscar jogo, ou o médio que fura linhas, ou o extremo que dribla o seu caminho até inventar oportunidades, ou o tipo que chega para as finalizar. Messi não executa uma de todas funções que Jorge Sampaoli, o selecionador, lhe parece exigir que cumpra, simultaneamente.

O pequeno genial ainda vê Enzo Pérez a não acertar na baliza quase deserta um remate rasteiro, vindo de um corte atrapalhado dos croatas, a um cruzamento. É uma falha do jogador que não contava para o Mundial, nem foi convocado, mas chamado foi aquando da lesão de Lanzini e, de repente, já serve para titular ao segundo jogo. No jogo em que os croatas criam, pensam, executam e reagem melhor. A partida em que o único ponto positivo dos argentinos, que associamos a tudo quanto é ataque, criatividade e estética, é a reação à perda da bola.

Até essa única coisa à qual se podiam agarrar ruir, por completo, aos 53 minutos, na fatalidade de mais um passe atrasado para Willy Caballero. A inaptidão do seu pé direito juntou-se ao azar na bola que tentou picar por cima de Ante Rebic, saída balão furado que o croata bombeou espetacularmente, de primeira, para a baliza. Um erro que os mesmos irascíveis argentinos, que exigem todo o futebol do mundo a um certo argentino, usarão para o enterrar no fundo da crítica doentia.

Daí em diante a Argentina inclinou-se, a pique, sobre o abismo para o qual se foram empurrando desde há meses. Um rumo só interrompido no Equador, onde Messi gastou uns créditos de engenho pessoal e divindade em três golos, que adiaram a queda para este Mundial.

Deixou de ser disfarçável a inexistência de plano, de estratégia, de forma de jogar aparente e estrutura de equipa. Restava-lhes a alma de serem argentinos, a urgência de jogarem pela sobrevivência que lhes injetou raça e aquela atitude de ir a todas - um estado, sinceramente, que era a sua melhor hipótese de, ao menos, oferecerem alguma resistência à Croácia. A seleção que era em tudo superior à pobreza franciscana deles, que até o Papa, coincidentemente de seu nome Francisco, e por tripla coincidência também argentino e fã deste bonito jogo, devia estar a sentir.

E Lionel Messi, o Messi, a ver Luka Modric e Iván Rakitic dominarem a bola, o espaço e o tempo de fazer todas as coisas que deveriam ser gravadas para, um dia, serem mostradas em salas de aula, se alguma vez o jogar futebol desse para ser aprendido com o rabo sentado em cadeiras.

O melhor par de médios desta competição crescia à mesma velocidade da desorganização da Argentina. Uma seleção que a existir assim, nesta moribunda forma, apenas mete medo na figura do seu selecionador, um homem musculado e de braços completamente tatuados, que cedo arriscou em Higuaín, mas tirando Agüero; que, diz-se, nunca testou Paulo Dybala com os titulares, durante os treinos, mas que lhe o mete em campo para os últimos 15 minutos do desespero; que à falta de tanta coisa, ainda rouba Higuaín e Dybala, mais Di María, Banega e Lo Celso, ao jogo. Quando tudo o falta, não deveria faltar, ao menos, o talento.

E rouba-os, sobretudo, a Messi - que já deveria antever tudo isto.

Ele estava bem perto para ver a única hipótese, algo tímida, que a Argentina tem para marcar um golo, nos pés de Meza. Ele viu ao longe o baile figurado e literal que a genialidade contida no pequeno Luka Modric protagoniza, para desmontar Otamendi e rematar o golaço que é o 2-0.

Também viu de perto o 3-0, porque sprintou na corrida do desespero, atrás do contra-ataque terminado por Rakitic a dois toques, na área, rodeado, mas com toda a calma do planeta. E já o vira rematar um livre à barra no meio de tantas outras ocasiões, mais do que justificadas e planeadas com tino, com que os croatas podiam ter espezinhado uma seleção a arrastar-se, de gatas e moribunda, pelo relvado.

A demonstração de força e poderio de uma seleção que joga futebol e dá gozo ao vê-la jogá-lo coincide, como só poderia ser, com a prova da falência da maneira de (des)fazer as coisas da Argentina, a seleção cuja confiança cegamente depositada num génio, na esperança de que basta tê-lo para tudo acabar bem, a tem enganado durante estes anos em que chegou a três finais (no anterior Mundial e em duas Copa Américas).

Há quase uma década que Lionel Messi, por momentos, pelo talento e por ser quem é, dobra as leis da lógica e individualiza um pouco um desporto que é coletivo e onde o sucesso só chega quando é procurado em conjunto. Os Busquets, Iniestas e Xavis que sempre teve no Barcelona são na Argentina, há muito tempo, a falta de coragem, de risco, de assumir a bola e de valentia para abrir espaços, em vez de esperar por espaço que eles apareçam por insistência do craque ou porque dois ou três adversários lhe caem em cima.

Pode dar pena ver a auto-destruição da Argentina, talvez a seleção que mais gente (fora ingleses e brasileiros) goste de ver ganhar, quando o seu país não está em jogo. Nem que seja por nela existir Lionel Messi - ou por, até ele, já parecer sentir pena deles e de si próprio.


FONTE: TribunaExpresso